As árvores caídas em São Paulo, dez dias após o vendaval que atingiu a capital paulista em 10 de dezembro de 2025, revela um contraste notável na gestão de crises. Enquanto a Prefeitura de São Paulo adotou uma postura de rigor e cobrança pública em relação à concessionária Enel, exigindo celeridade no restabelecimento das redes elétricas aéreas, a mesma urgência não parece ser aplicada à limpeza urbana e à desobstrução de calçadas, uma responsabilidade direta do poder municipal.
O evento climático, classificado como um ciclone extratropical, trouxe ventos que ultrapassaram os 90 km/h, deixando milhões de imóveis sem energia e causando a queda de mais de 400 árvores em toda a cidade. A resposta inicial da prefeitura foi marcada pela notificação à Enel e pela ameaça de iniciar um processo de caducidade da concessão, devido à lentidão no atendimento e à grande quantidade de veículos parados durante o caos. No entanto, a persistência de troncos e galhos nas vias públicas, transformando calçadas em verdadeiras pistas de obstáculos, aponta para uma falha na logística e na priorização do serviço público essencial.
O caos de 10 de dezembro e a cobrança à Enel
O dia 10 de dezembro de 2025 entrou para a história de São Paulo como um dos maiores eventos de vendaval sem chuva, com rajadas de vento que chegaram a 98 km/h. A força do fenômeno climático causou um colapso na infraestrutura da cidade, com a queda massiva de árvores sendo a principal causa dos apagões generalizados.
A Prefeitura de São Paulo, por meio de suas secretarias, mobilizou-se para fiscalizar a atuação da Enel, exigindo um plano efetivo para o restabelecimento dos serviços. Essa pressão resultou em reuniões com os governos estadual e federal, culminando na solicitação de informações técnicas à ANEEL e na discussão sobre a caducidade da concessão. A postura enérgica da administração municipal em relação à concessionária foi amplamente divulgada, criando a expectativa de uma resposta igualmente rápida e eficiente em todas as frentes da crise.
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| Consequência do Vendaval | Responsabilidade Primária | Postura da Prefeitura |
| Falta de Energia Elétrica | Enel (Concessionária) | Cobrança rigorosa, notificação e discussão de caducidade. |
| Remoção de Detritos (Troncos/Galhos) | Prefeitura (Subprefeituras) | Lentidão e falha na logística, resultando em detritos persistentes. |
Obstáculos e risco para os pedestres
Passados mais de dez dias do vendaval, a realidade em diversos bairros da capital paulista é de abandono e risco para os pedestres. O que deveria ser uma operação de limpeza rápida e emergencial se arrasta, deixando os restos das árvores caídas nas calçadas.
Um exemplo emblemático dessa situação é a Rua Prefeito Fábio Prado, na Chácara Klabin, bairro da Vila Mariana. A queda de uma árvore de grande porte, que inicialmente bloqueou a rua, teve seus restos depositados nas calçadas de ambos os lados da via. Essa obstrução força o pedestre a desviar para a rua, expondo-o ao risco de atropelamento, uma vez que não há qualquer sinalização ou medida de segurança para o tráfego de pessoas na via de veículos.
A situação não é isolada. Relatos em redes sociais e notícias confirmam que a remoção de detritos e entulhos de árvores caídas se tornou um problema crônico pós-crise, com moradores denunciando a permanência do material por dias a fio, em um cenário que se repete em diferentes regiões da cidade. A prioridade de remoção, que deveria ser a desobstrução de vias e calçadas para garantir a segurança e a mobilidade, parece não estar sendo cumprida com a devida urgência.
O empurra-empurra do atendimento SP156
A ineficiência na remoção de detritos é agravada pela burocracia e pela falha no sistema de atendimento ao cidadão. O canal oficial para a solicitação de serviços, o SP156, que deveria ser a porta de entrada para a solução, tem se mostrado um labirinto de responsabilidades.
Em um caso específico na Rua Dionísio da Costa, também na região da Vila Mariana, um munícipe que acionou o SP156 para solicitar a remoção de galhos e troncos viu seu protocolo ser encerrado com a orientação de procurar “outra empresa” responsável pela execução do serviço.
Essa resposta, que sugere a terceirização do atendimento e a transferência de responsabilidade para o cidadão, ignora o princípio fundamental de que a responsabilidade final pela limpeza e segurança das vias públicas é da Prefeitura, independentemente de quem seja contratado para executar o serviço. A complexidade na gestão da arborização urbana, que envolve a Prefeitura (por meio das Subprefeituras), empresas terceirizadas e a Enel (responsável pela poda próxima à rede elétrica), não pode se traduzir em um “jogo de empurra” que penaliza o morador.
O encerramento prematuro de protocolos e a falta de clareza sobre quem deve ser acionado em cada etapa do processo (queda, corte inicial, remoção final dos detritos) minam a confiança no serviço público e forçam os cidadãos a buscar canais alternativos, como a Ouvidoria, para tentar resolver problemas básicos de segurança e mobilidade.
Conclusão: O Risco da Inação
A demora na remoção de detritos e a falha no sistema de atendimento da Prefeitura de São Paulo após o vendaval de 10 de dezembro de 2025 expõem uma perigosa contradição na gestão municipal. A mesma administração que cobra, com razão, a agilidade da Enel, demonstra lentidão e ineficácia em suas próprias atribuições.
Essa permanência de troncos e galhos nas calçadas não é apenas uma questão estética ou de transtorno; é um problema de segurança pública que coloca a vida dos pedestres em risco diariamente. A prioridade na desobstrução das vias e na garantia da mobilidade urbana deve ser imediata, e o sistema de atendimento ao cidadão precisa ser transparente e resolutivo, e não um obstáculo burocrático. Os serviços públicos, em especial em situação de crises, devem cumprir com uma resposta coordenada e ágil de todos os entes envolvidos, mas a Prefeitura precisa, antes de tudo, impor a si mesma o mesmo rigor que exige dos outros.

