O acordo de Milei com Trump poderá representar uma ameaça para a indústria nacional, enquanto favorece o agronegócio. Sob a liderança de Milei nas negociações, esse possível pacto pode beneficiar setores como agronegócio e energia, mas também intensificará a dependência financeira do país.
À medida que as negociações comerciais com os Estados Unidos avançam sob o governo de Trump, a Argentina, sob Javier Milei, pode estar se preparando para um reposicionamento econômico significativo. Analistas apontam que o acordo oferece oportunidades nas áreas de agronegócio, petróleo, gás e lítio, mas também acende preocupações sobre a desindustrialização, a instabilidade social e uma dependência excessiva de investimentos estrangeiros.
Negociações avançam com foco em setores estratégicos
A Argentina e os Estados Unidos estão em tratativas para fechar um acordo comercial que pode redefinir a estrutura produtiva do país sul-americano. Por trás das negociações, há não somente intenções econômicas, mas também geopolíticas: os EUA veem um parceiro estratégico na Argentina, especialmente para recursos naturais e energia.
No agronegócio, a abertura pode favorecer exportações de soja, carne premium e derivados agrícolas, reforçando o papel da produção rural no crescimento econômico. Já no setor energético, investidores norte-americanos devem acelerar aportes em Vaca Muerta (petróleo não convencional), GNL (gás natural liquefeito) e lítio — commodities centrais para a transição energética mundial.
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Indústria nacional sob pressão
Apesar das oportunidades, a indústria local corre risco grave. A liberalização de tarifas pode permitir a entrada maciça de produtos americanos em segmentos como maquinário, automóveis, hardware e eletroeletrônicos — setores nos quais muitas empresas argentinas já enfrentam dificuldades para competir.
A concorrência externa, combinada com eventuais reformas trabalhistas e cortes de custos, pode levar ao fechamento de fábricas e à perda de empregos, acelerando um processo de desindustrialização que preocupa economistas e representantes de sindicatos.
Finanças e dependência: medida de estabilização com receita arriscada
Em paralelo ao possível acordo comercial, os Estados Unidos estariam montando um mecanismo financeiro para injetar até US$ 20 bilhões na dívida soberana argentina. A iniciativa visa, segundo fontes envolvidas, garantir liquidez, reduzir o risco-país e estabilizar a economia.
Esse suporte poderia atrair de volta investidores estrangeiros, fortalecer o mercado de títulos argentinos e reforçar a confiança internacional. No entanto, a dependência aumentada de capital externo traz riscos: a Argentina ficaria vulnerável a mudanças na política norte-americana e a exigências por reformas econômicas e fiscais cada vez mais rígidas.
Impacto para os consumidores e riscos sociais
Para a população argentina, a abertura comercial pode representar uma vantagem evidente: maior oferta de produtos importados, queda de preços — especialmente em eletrônicos, tecnologia e bens de consumo — e acesso ampliado a mercadorias. Por outro lado, a provável perda de postos de trabalho industrial pode pesar sobre a renda e gerar instabilidade social.
Reformas impositivas e trabalhistas podem ser necessárias para ajustar a economia ao novo modelo, mas tendem a enfrentar resistência política e sindical, especialmente em um contexto de mudança de governo.
Dependência estratégica e geopolítica
Além das dimensões econômicas, o acordo materializa um realinhamento estratégico: a Argentina reforça sua relação com os EUA em um momento de competição global por recursos como lítio, fundamentais para a nova economia energética.
Essa cooperação estreita pode dar a Washington influência determinante sobre as decisões estratégicas argentinas, restringindo a autonomia de políticas públicas no longo prazo.

